domingo, 26 de abril de 2009
Novo romancista não só promete muito, mas já cumpre
Benhur Bortolotto andava por Uruguaiana em busca de quem lesse seu romance, A nave das borboletas, para uma revisão crítica. Tanto andaram esses originais que vieram parar em minhas mãos e o apanhei sem nenhuma esperança de ler uma boa história, já que o autor tem 21 anos. Quem disser que idade não importa, não estará sendo fiel à realidade, pois um romancista precisa de muita vivência pessoal e literária, além de talento, é óbvio, para fazer um bom trabalho.
Mas Bortolotto surpreende desde a primeira página de seus escritos, quando nos deparamos com a perspectiva de um personagem central de mais de 70 anos, vivendo na cidade fictícia de São Roque, no início da ditadura militar, com uma linguagem e comportamento que dificilmente alguém sem muitas décadas de experiência ficcional poderia construir.
Esse “velho” se auto-exilou em uma pequena cidade próxima a Passo Fundo e Erechim, depois de ter tido uma trajetória que inicia com estudos universitários na Áustria-Hungria, durante a I Guerra Mundial. Mas não se trata de um romance de militante político, a trama faz-se em torno de um personagem e a transformação que ele provoca nos outros personagens que convivem com ele em seus derradeiros dias. Transformações profundas, de caráter filosófico.
José ficou viúvo recentemente, de uma mulher com quem viveu por muitos anos, aparentemente sem nenhuma paixão, e está começando a aprender algumas lides domésticas, como forma de manter um interesse naquele fim de mundo que escolheu para viver. A empregada, bonita, de nome Maria, começa a chamá-lo para a vida através de sua energia e juventude. Há uma outra mulher, uma enfermeira vinda de uma suposta capital, negra em uma cidade de colonização italiana. E há também um jovem, Gabriel, que se assemelha a alguém que o velho conheceu no passado. Esses personagens, e mais o major, pai de Gabriel, dona Magdalena, uma professora, tia do jovem, vão levar José a se envolver em suas vidas de forma indelével. Todos esses encontros se dão num momento em que ele próprio se depara com um fato novo que lhe provoca um forte sentimento de ameaça.
E todo esse material é narrado em períodos longos, pensamento não linear, pontuação anticonvencional, não pela experimentação em si, mas porque o autor não se conforma com a narrativa compartimentada, cartesiana. Então ele se expande à moda José Saramago, o que dito assim, numa apresentação, poderá até assustar muitos leitores, como o fez comigo no princípio, já que li o texto em sobressaltos, acreditando que ele não sustentaria aquela forma. Mas suas influências do autor português e de outros grandes autores do século passado lhe deram régua e compasso para estruturar um romance denso, com personagens de sentimentos complexos e discussões profundas, mostrados através de um discurso com muita vida, belas imagens poéticas e envolvimento emocional do leitor, aprisionado às histórias dessas vidas que são como todas as vidas e por isso tão comoventes.
VERA IONE MOLINA SILVA
veramol@terra.com.br
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